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Um outro caminho é possível

Como podemos levar paz no meio da guerra se também estamos tomando partido?

Como não se omitir e ao mesmo tempo não se associar a um dos lados?


O que é compaixão? Um monge da sanga de Thich Nhat Hanh, que foi cruelmente torturado, disse que o momento mais difícil foi quando quase deixou de ter compaixão por seus torturadores.

Compaixão é finalmente entender que somos um com o outro.

Isto significa reconhecer em nós as características do outro, boas ou más. Podemos ser bons ou ruins, depende do que alimentamos.

Há um ditado latino que diz: “Sou humano e nada do que é humano considero como alheio a mim”.

Ou seja: tudo o que um ser humano pode ser, santo ou demônio, eu também posso ser. Deste modo eu não odeio os que fazem o mal, eu os entendo. Continuo discordando e lutando contra suas ações, mas sem odiá-los. Os franceses dizem que tudo compreender é tudo perdoar.

Isto está acima de qualquer religião, ou visão política.

Buda, Cristo, Thich Nhat Hanh, Gandhi se recusaram a tomar partido em questões politicas. Mesmo com sua cidade natal sendo invadida, Buda se recusou a pegar em armas. Cristo se recusou a liderar uma revolta contra os romanos e Gandhi conseguiu a independência da India sem derramar sangue.

Cristo não queria combater os romanos, ele queria convertê-los. Eles não eram o inimigo, eram pessoas ainda iludidas. (perdoai-os Senhor, porque não sabem o que fazem, Cristo disse na cruz).

Buda não disse que o sofrimento pode ser eliminado desde que a facção A ou B estivesse no poder. Ao contrário, viu que tanto o príncipe quanto o pária sofriam e que o caminho para não mais sofrer não passava por mudar de classe. Raspou o cabelo para mostrar isso.

Buda e Cristo mostraram que uma outra maneira de viver é possível. Outro mundo além do samsara mas ao mesmo tempo incluindo o samsara.

Os dois são um só.

Mas então como agir? Ignorar as violências cometidas neste mundo e tentar ficar num Olimpo iluminado?

Gandhi e Thich Nhat nos mostraram o caminho: lutaram contra a violência e opressão mas sem ódio. Gandhi depois de uma reunião com os ingleses disse a seus discípulos que não faria outra enquanto notasse que havia ódio aos ingleses por parte de sua equipe.

O ódio nos cega e nos faz ver só um lado da questão. Nos faz também ignorar a história. Convencidos de que temos razão, nem sequer queremos ouvir o outro lado. Achamos que quem não concorda conosco, quem não odeia junto conosco, está do outro lado, não admitindo mais que duas posições.

Podemos até nos indignar com a violência, mas temos que nos indignar com toda a violência sem exceção, não podemos ter indignação seletiva. Nestes casos não podemos apoiar nem o lado A nem o lado B. Temos que ter uma terceira posição que não é ficar em cima do muro, mas é uma defesa firme em favor da paz. Temos que ser ativistas da paz, como Thich Nhat Hanh fez no Vietnã e Gandhi na Índia.

Mas justa indignação não pode ser ódio. Nem nos cegar para o bem que ainda existe no mundo. Vemos os combatentes, mas também há os médicos, enfermeiros e muitos outros que se põem na zona de perigo para ajudar os outros. Junto com os casos de violência profunda há os casos de abnegação profunda. Médicos de ambos os lados atendem pacientes de ambos os lados, sem distinção. Pessoas doam remédios e comida. Não deixemos que o ódio nos deixe amargurados.

Levemos a nossa gota d’água de paz, mesmo sabendo que é só uma gota d’água.


Dozen Muni sensei

 
 
 

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