O Zen Budismo

O que é o Zen-budismo
  • Domingo, 30 de Abril de 2017
 

O Zen é um método prático de realização da natureza de Buda. Isso significa dizer que é uma atitude de vida que perpassa todas nossas ações. No Zen desenvolvemos atenção plena mediante uma disciplina de corpo e mente, experienciada de forma simples e direta no aqui-agora. Cabe referir que o Zen budismo é uma tradição religiosa com princípios filosóficos próprios e que, como muitas outras tradições, possui diversas Cerimônias e Liturgias.

Em nossa escola, Sotozen-shu do Japão, a prática é desenvolvida mediante cinco treinamentos: Zazen, Kinhin, Cerimonial, Samú e Vida Cotidiana. Durante um Sesshin (retiro Zen), temos a oportunidade de vivenciar todos eles em um único dia, dia após dia. Seja no silencioso sentar-se em Sanga (Comunidade de Praticantes) ou buscando caminhar no ritmo do grupo, recitando Sutras, fazendo as refeições juntos ou dividindo as tarefas comunitárias, todas essas ações se convertem numa oportunidade de trabalharmos os padrões (apegos e aversões) e se preparar em Sanga para interagir no cotidiano de forma a sermos a Paz que queremos para o mundo.

 
Zazen
 

Literalmente, Zazen significa "sentar zen”. Sentar em silêncio, de frente para a parede. O foco é a respiração e o livre fluir dos pensamentos, sem fixar em nenhum deles, o que proporciona ao praticante uma diminuição da agitação mental. Livre de qualquer expectativa de ganho, nos detemos em nos observar – postura, sensações, impressões, corpo e mente – o que ocorre dentro e fora de nós. Tudo faz parte, sejam "barulhos” internos ou externos. Observar é a palavra chave no Zazen. Pouco a pouco vamos nos tornando íntimos com o observador que amplia sua percepção para além de si mesmo, nos damos conta que nossa capacidade de consciência é fabulosa e vai muito além de nós mesmos. Nesse momento voltamos à respiração e percebemos que ela é o fio que nos conduz na vida e no Zazen. Apenas sentar, apenas respirar.

O Zazen nos permite penetrar a natureza do que somos e realizar a verdade última. O Roshi Mumon Yamada (p.71) disse:

Para achar a jóia, deve-se acalmar as ondas; será difícil encontrá-la se agitarem a água. Onde as águas da meditação são claras e calmas, a jóia da mente estará naturalmente visível.’ Muitas pessoas pularão dentro da água, se a jóia tiver caído no lago, e agitarão a água até que se torne tão turva que só encontrarão pedras e seixos. O homem sábio espera que a água se acalme de modo que a jóia venha a brilhar naturalmente, por si própria. A disciplina do Zen é a mesma coisa. Quanto mais você tenta conhecer os princípios do Zen lendo livros, mais se distancia da natureza de Buda. Se você tentar alcançar o conhecimento sentando-se sem especulação, entretanto, a jóia da natureza de Buda começará a brilhar por si mesma, e você compreenderá o verdadeiros self, o que estava procurando.

 
Kinhin
 

É uma caminhada lenta em que se procura manter o mesmo estado mental do Zazen. Atentos ao ritmo do grupo sem perder de vista nosso próprio ritmo, apenas caminhamos lentamente. Em práticas intensivas e retiros são feitos muito períodos de Zazen intercalados por períodos de kinhin, que duram de 5 a 10 minutos. Essa alternância de práticas ajuda a relaxar o corpo e retornar a circulação sanguínea e energética, além de nos mostrar que é possível manter o estado mental do Zazen em nossas atividades diárias, ao atender o telefone, ao lavar a louça, em tudo que estivermos realizando.

Para mais instruções sobre Zazen e Kinhin sugerimos:

 
Cerimonial e Liturgias
 

Além de ser uma das práticas para desenvolver Atenção Plena e disciplinar corpo e mente, o cerimonial tem a função de lembrar, honrar e agradecer a todos aqueles que dedicaram suas vidas para a transmissão dos ensinamentos de Buda. Citamos abaixo algumas cerimônias realizadas mais frequentemente, no cotidiano dos Mosteiros Zen Soto:

 
Tchoca
 

Cerimônia da manhã. É dedicada ao Mestre Original Shakyamuni Buddha, aos Três Tesouros, à Linhagem, ao Fundador do Templo, à Orientadora espiritual do Templo e aos antepassados.

 
Nitchu Fuguin
 

Cerimônia do meio-dia. É dedicada ao Grande Venerável Mestre Fundador Xaquiamun Buda, à Grande Mestra Primeira Monja Histórica Mahapraja Pati Daioshö, ao Grande Mestre Ancestral Superior Jöyö Eihei Dögen Daioshö, ao Grande Mestre Ancestral Maior Jösai Keizan Jokin Daioshö, aos Três Tesouros nas dez direções e a todos os falecidos nos três mundos.

 
Banka Fuguin
 

Cerimônia da tarde. É dedicada a todos os espíritos famintos. Com esta cerimônia se aspira que haja prosperidade e um compartilhamento que acabe com a fome e a miséria no mundo e que possamos também perceber e saciar o espírito faminto e ganancioso que há em cada um de nós.

 
Ryaku Fusatsu (Cerimonia Curta)
 

Cerimônia de Arrependimento Curta. Realizada na lua cheia. A recitação principal é:

Todo carma prejudicial alguma vez cometido por mim

Devido a minha ganância, raiva e ignorância

Nascido de meu corpo, boca e mente

Agora de tudo eu me arrependo.

 
Cerimônia de Jukai (Transmissão dos Preceitos)
 

Cerimônia em que o(a) praticante assume publicamente seu compromisso de orientar sua vida de acordo com os preceitos de Bodisatva (Bodhi é mente iluminada e Satva é viver); recebe um Rakusu (peça de vestimenta que simboliza o manto de Buda) que ele mesmo costura, um nome de Darma e formaliza o relacionamento com seu Mestre ou sua Mestra.

 
Cerimônia de Orioki
 

Na escola Soto Zen as refeições são feitas de maneira formal usando-se Oriokis (tigelas em japonês – daí o nome da prática).

A refeição é precedida pela leitura de versos que nos remetem a uma atitude de gratidão por todas as interconexões que foram necessárias para que a refeição chegasse até nós. O preparo das refeições no Zen Soto é considerada uma das práticas mais importantes dentro do mosteiro. O responsável pela cozinha nos Templos é o Tenzo ou cozinheiro Zen.

 
Samú (trabalho comunitário)
 

É o trabalho realizado em um Templo ou comunidade Zen, como parte do treinamento de integrar o sagrado às necessidades da vida diária. É o Zen em ação. Procura-se manter a mente do Zazen na execução de tarefas, sempre com a perspectiva de que dedicamos nossos esforços em benefício de toda a comunidade e de todos os seres. Sem pensar em benefício próprio é fundamental ter uma atitude de prontidão, sem escolher o que preferimos ou não fazer, simplesmente fazemos o que precisa ser feito.

Esta prática foi instalada pelo 4º ancestral, Doshin, no templo de Shohozan. O trabalho manual de manutenção do centro tornou-se parte da vida monástica como treinamento espiritual ligado às necessidades da vida diária.

Converse com os monges para datas e informações sobre como ajudar no samú.

 
Vida Diária
 

O treinamento do Zen e as atividades da vida cotidiana devem estar interligadas formando uma única prática. Desse modo poderão tornar-se um desafio capaz de introduzir a mente Zen na vida diária. Com as experiências vividas no dia-dia retornamos ao Zazen, e o atrito gerado por este processo – integração vida cotidiana e Zazen, movimento e pausa – podem fornecer a energia que cria mudanças por meio das quais podemos crescer.

A prática na vida diária é a mesma da almofada de Zazen: examinar os pensamentos cotidianos de ganância, raiva e ignorância e retornar para a mente pura original. Não existe separação entre a prática e a iluminação, ou entre o Zazen e a vida cotidiana.