O Zen Budismo

Os 14 Preceitos Budistas da Ordem do Interser
  • Domingo, 18 de Novembro de 2018

OS 14 PRECEITOS DA ORDEM DO INTERSER

No primeiro dia de lua cheia de fevereiro de 1966, o monge budista vietnamita Thay Nhat Hanh ordenou os seis primeiros membros de sua “Ordem do Inter-Ser”. A guerra em seu país se intensificava e os ensinamentos de Buda eram mais do que nunca necessários. Thay Nhat Hanh tinha redigido os 14 Preceitos da Ordem do Inter Ser, que segundo ele eram fieis aos mais profundos ensinamentos de Buda e adaptados à nossa época. Sua discípula Chang Khong  conta que, durante a cerimônia de iniciação, ela e outros cinco co-praticantes fizeram voto de estudar, praticar e observar os 14 preceitos assim formulados:

1.  Abertura de espírito

Conscientes do sofrimento provocado pelo fanatismo e a intolerância, nós nos comprometemos a não idolatrar com apego nenhuma doutrina, teoria ou ideologia, mesmo budista. Os ensinamentos de Buda são meios que nos guiam, nos ajudam a praticar o olhar profundo e a desenvolver nossa compreensão e nossa compaixão. Não são doutrinas pelas quais entraremos em confronto, nos mataremos e nos sacrificaremos.

2. Não-apego às opiniões.

Conscientes do sofrimento provocado pelo apego às opiniões e percepções errôneas, nós nos comprometemos a não ficar limitados e nem nos apegar a nossas ideias atuais. Aprenderemos e praticaremos o não-apego às opiniões, a fim de abrir o espirito às experiências e visões profundas de outrem. Estamos conscientes do fato de que nosso conhecimento atual não é a verdade absoluta e não é imutável. A verdade é para ser encontrada na vida. Nós observaremos a vida em nós e em torno de nós a cada instante. Ao longo de toda nossa vida, estaremos sempre prontos a aprender.

3. Liberdade de pensamento

Conscientes do sofrimento provocado quando impomos nossa opinião a outrem, nós nos comprometemos a não forçar ninguém, inclusive nossos filhos, a pensar como nós. Nem com autoritarismo, nem com ameaça, nem com dinheiro, nem com propaganda e nem com doutrinação. Respeitamos o direito do outro de ser diferente. De ter suas próprias crenças. De tomar decisões. Entretanto, ajudaremos os outros a renunciar ao fanatismo e ao espírito limitado, através de um diálogo compassivo.

4. Consciência do sofrimento

Conscientes do fato de que o olhar profundo sobre a natureza do sofrimento pode nos ajudar a desenvolver nossa compaixão e abrir o caminho que leva à cessação do sofrimento, nós nos comprometemos a não evitar o sofrimento e nem fechar os olhos diante dele. Buscaremos todos os meios, especialmente o contato pessoal, as imagens, os sons, para estar com aqueles que sofrem. Para poder realmente compreender sua situação e ajudá-los a transformar seu sofrimento em compaixão, em paz e alegria.

5. Vida simples e saudável

Conscientes do fato de que a verdadeira felicidade está enraizada na paz, na solidez, na liberdade e na compaixão e não na riqueza ou na celebridade, nós nos comprometemos a não viver com o objetivo de obter celebridade, lucros, riquezas ou prazeres sensuais, nem de enriquecer enquanto milhões de pessoas morrem de fome. Buscaremos viver uma vida simples e partilhar nosso tempo, nossa energia e nossos recursos com quem necessite.

6. Contemplar a cólera

Conscientes do fato de que a cólera bloqueia a comunicação e cria o sofrimento, nós nos comprometemos a cuidar da energia da cólera quando ela surge e a reconhecer e transformar as sementes de cólera, que estão profundamente enfiadas em nossa consciência. Quando a cólera surge, nós nos comprometemos a nada dizer e nada fazer, salvo praticar a respiração consciente ou a meditação caminhando. E a reconhecer, abraçar e contemplar profundamente nossa cólera. Também nos comprometemos a olhar com compaixão as pessoas que pensamos estar na origem de nossa cólera.

7. Estabelecer-se no momento presente

Conscientes do fato de que a vida só é acessível no presente momento e que é possível viver feliz no aqui e agora, buscaremos viver plenamente cada momento de nossa vida cotidiana. Não nos deixaremos levar pelos remorsos do passado, as preocupações do futuro ou a cólera, a avidez e a inveja do presente. Nós nos comprometemos a aprender a arte de viver em Plena Consciência tocando os elementos maravilhosos, refrescantes e portadores de cura que estão em nós e em torno de nós. E aprender cultivando as sementes de alegria, de paz, de amor e de compreensão em nós mesmos, a fim de facilitar o trabalho de transformação e de cura na nossa consciência profunda.

8. Comunicação na comunidade

Conscientes de que a falta de comunicação leva sempre à divisão e ao sofrimento, nós nos comprometemos a praticar a escuta compassiva e a palavra amorosa. Aprenderemos a escutar atentamente sem julgar nem reagir, e a nos abster de falar o que possa criar desacordo ou ruptura na comunidade. Faremos tudo para manter aberta a  comunicação, nos reconciliar e resolver todos os conflitos, por menores que sejam.

9. Palavra certa e amorosa

Conscientes de que as palavras podem tanto criar sofrimento quanto felicidade, procuraremos aprender a dizer a verdade e a utilizar apenas palavras construtivas, inspiradoras de esperança e confiança. Nós nos comprometemos a não dizer mentiras por interesse próprio ou para impressionar as pessoas. E a não dizer nada que possa causar divisão ou ódio. Não espalharemos nenhum boato, nem criticaremos ou condenaremos nada de que não tenhamos certeza. Faremos o possível para falar abertamente das situações injustas, mesmo se isso ameaçar nossa segurança.

10. Proteção da Sanga

Conscientes do fato de que a essência e o objetivo de uma comunidade é a prática da compreensão e da compaixão, estamos determinados a não utilizar a comunidade budista para nosso ganho ou lucro pessoal, e a não transformar nossa comunidade em um instrumento político. No entanto, uma comunidade espiritual deve tomar posição clara contra a opressão e a injustiça, e fazer o possível para mudar essa situação sem se envolver em lutas facciosas.

11. Meios de vida corretos

Conscientes do fato de que nosso ambiente e nossa sociedade sofreram uma grande violência e uma grande injustiça, nós nos comprometemos a não ter meios de vida que prejudiquem os seres vivos ou a natureza. Faremos o possível para escolher meios de vida que sirvam para realizar nosso ideal de compreensão e de compaixão. Conscientes da realidade mundial da economia, da política e da sociedade, nós nos comportaremos com responsabilidade enquanto consumidores e cidadãos. Não investiremos em empresas que privam os outros de sua chance de vida.

12. Respeito à vida

Conscientes do fato de que a guerra e os conflitos levam a muitos sofrimentos, nos comprometemos a cultivar a não-violência, a compreensão e a compaixão na nossa vida cotidiana, a promover a educação para a paz, a meditação em Plena Consciência e a reconciliação nas famílias, nas comunidades, no país e no mundo. Nós nos comprometemos a não matar e a não deixar os outros matarem. Praticaremos o olhar profundo sem descanso com a nossa Sanga para ver quais são os melhores meios de proteger a vida e impedir a guerra.

13. Generosidade

Conscientes do fato de que a exploração, a injustiça social, o roubo e a opressão causam sofrimento, procuramos cultivar o amor benigno e aprender como trabalhar para o bem-estar de outrem, dos animais, das plantas e dos minerais. Praticaremos a generosidade compartilhando nosso tempo, nossas energias e nossos recursos materiais com aqueles que realmente precisam. Nós nos comprometemos a não roubar e não nos apropriar daquilo que não nos pertence. Respeitaremos os bens de outrem e tentaremos impedir que outros tirem vantagem do sofrimento de seres humanos e outros seres vivos.

14. Comportamento correto

Conscientes do fato de que as relações sexuais motivadas pelo desejo não podem dissipar nossos sentimentos de solidão, mas que elas engendram sofrimentos futuros, frustração, e podem causar separação, nós nos comprometemos a cuidar para que nossas relações sexuais sejam acompanhadas de compreensão mútua, de amor e de compromisso a longo prazo. Sabemos que o respeito dos direitos e deveres de outrem é a fonte de nossa felicidade e da felicidade do outro. Faremos o possível para proteger as crianças dos abusos sexuais e para impedir que casais e famílias se destruam por causa de comportamentos sexuais impróprios. Sejamos conscientes de nossas responsabilidades e do estado do mundo quando contribuirmos com a aparição de novas vidas. Nós nos comprometemos a não maltratar nosso corpo, a aprender a tratá-lo com respeito e a não considerá-lo apenas um instrumento. Nós nos comprometemos a preservar as energias vitais (sexo, respiração e espírito) para atingir nosso ideal de bodisatva. ⃝

Compilaçao das páginas 131 a 140 do livro de Soeur Chân Không, La force de l’amour, Editions Albin Michel, Paris, 2008, por Daien Eishin para o Grupo de Estudos Via Zen, outubro de 2018.