O Zen Budismo

Breve Parinirvana Sutra
  • Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
 

Breve Parinirvana Sutra

 

Quando Xaquiamuni Buda girou pela primeira vez a Roda do Dharma, Ajnata-kaundinya despertou. Em seu último discurso do Dharma, Subhadra se iluminou. Todos que deveriam ser despertos assim o foram. Entre duas árvores-sala, Xaquiamuni Buda estava quase entrando em Parinirvana. Era o meio de uma noite calma, silenciosa, sem nenhum ruído. Para o bem de todos seus discípulos Xaquiamuni Buda fez uma breve explicação da essência do Dharma:

 

Oh, Monges!

Depois de minha morte respeitem e compartilhem os Preceitos. Manter os Preceitos é como encontrar uma luz na escuridão; é como uma pessoa pobre encontrando um grande tesouro. Saibam que os Preceitos são, para vocês, o mestre. Manter os Preceitos é Me manter sempre vivo neste mundo. As pessoas que mantêm os Preceitos não devem se dedicar ao comércio nem devem possuir campos e moradias, não devem governar sobre outras pessoas e nem manter servos ou animais. Devem evitar possuir plantações e acumular bens, da mesma forma que evitariam uma fogueira. Não devem cortar grama nem árvores, arar o solo ou cavar a terra, misturar remédios, ler a sorte, observar a posição das estrelas, predizer as fases da lua, calcular calendários e dias auspiciosos. Controlem seus corpos, comam nas horas certas, em pureza se conduzam. Não se envolvam nos afazeres mundanos, nem ajam como mensageiros, não façam mágicas, não misturem poções e não se tornem íntimos com pessoas eminentes. Com a mente clara e correta atenção vocês devem procurar o despertar. Vocês não devem esconder seus erros, não devem expressar pontos de vista errôneos e nem liderar pessoas erroneamente. Ao receber as quatro espécies de ofertas, saibam a quantia correta e fiquem satisfeitos. Não acumulem ofertas.

 

Agora vou falar brevemente em como proteger os Preceitos. Os Preceitos são a base da verdadeira libertação, por isso são chamados de Pratimoksa - o que leva à libertação. A confiança nos Preceitos faz surgir todos os dhyanas e a sabedoria que extingue o sofrimento. Por esta razão, Monges, vocês devem manter os Preceitos e não os devem infringir. Se vocês mantiverem os Preceitos obterão o Bem. Se não os mantiverem, nenhum mérito surgirá. Assim, saibam que os Preceitos são o local onde vive a equanimidade, que é o mérito fundamental.

 

Oh, Monges!

Vocês que mantêm os Preceitos devem controlar os cinco sentidos. Não deixem os sentidos desprotegidos, permitindo que os cinco desejos penetrem e controlem vocês. É como o vaqueiro que brande sua vara para evitar que o gado invada a plantação de outra pessoa. Se há indulgência nos cinco sentidos, os cinco desejos ficarão à solta e vocês serão incapazes de controlá-los. Novamente repito: é como um cavalo bravo que não pode ser controlado pelo chicote e cai numa vala levando seu cavaleiro com ele. Embora o sofrimento de ser ferido por um ladrão dure apenas uma vida, o mal causado pelos cinco sentidos se estende através de muitas vidas, criando grande dor. Não negligenciem a atenção. É por esta razão que a pessoa sábia controla seus sentidos e não os segue, os mantêm guardados, não permitindo que vagueiem ao léu. Os sábios quando libertam os cinco sentidos logo os aquietam. A mestra dos cinco sentidos é a mente. Por esta razão vocês devem controlar suas mentes. A mente deve ser mais temida que as cobras venenosas, bestas selvagens ou assaltantes vingadores. Grandes incêndios e destrutivas enchentes não podem ser comparados a ela. É como uma pessoa que, correndo celeremente com uma jarra de mel nas mãos, olhe apenas para o mel e não veja um grande buraco. Repito, é como um elefante enlouquecido sem uma corrente ou um macaco pulando nas árvores. Ambos são muito difíceis de se controlar. Dominem logo a mente e não a deixem desembestar. Se cederem, perderão a boa sorte de terem nascido humanos. Se mantiverem a mente focalizada, não haverá algo que não possam obter. Por esta razão, Monges, vocês devem se esforçar com muita diligência, para manter a mente sob controle.

 

Oh, Monges!

Quando receberem comida e bebida vocês as devem considerar como remédio. Não peguem mais daquilo que gostam e menos daquilo que desgostam. Apenas aceitem o suficiente para manter suas vidas e controlar a fome e a sede. Façam como a abelha que apanha apenas a doçura das flores sem manchar sua cor ou tirar sua fragrância. Aceitem apenas o suficiente das ofertas para evitar tristezas. Não peçam muito para não destruir as boas intenções. Isto se compara à pessoa sábia que conhece a força de seu touro e não o sobrecarrega.

 

Oh, Monges!

Dia e noite pratiquem com determinação o bom ensinamento. Não percam tempo. Não negligenciem seus esforços nem mesmo à noite nem pela manhã, ao amanhecer. No meio da noite recitem os Sutras. Assim vocês devem ordenar suas vidas. Não deixem que a vida passe à toa, apenas dormindo, sem obter a realização. Vocês devem se lembrar que o mundo todo está sendo consumido pelo fogo da impermanência. Rapidamente procurem despertar e não dormir. As paixões estão sempre prontas para matar uma pessoa, mais do que um inimigo mortal. Como vocês podem ficar dormindo e abaixar a guarda? As paixões são como uma cobra venenosa dormindo em sua mente. Não são diferentes de uma cobra negra dormindo em seu quarto. Espante-a com a ponta aguda dos Preceitos. Vocês só poderão dormir tranqüilos depois que a cobra sair. Se dormirem enquanto a cobra ainda estiver lá, vocês estarão agindo sem consciência. Entre as coisas refinadas, a tecedura da consciência é a melhor de todas. A consciência é como uma agulha de ferro com a qual se pinçam os enganos. Assim sendo, Monges, sempre sigam sua consciência e não a ignorem nem por um só momento. Esquecendo-se da consciência, perdem-se todos os méritos. Aqueles que conhecem o pudor sabem do bom ensinamento. Aqueles que não conhecem o pudor não são diferentes de bestas selvagens.

 

 

Oh, Monges!

Se alguém vier desmembrá-los, articulação por articulação, vocês devem controlar a mente e não permitir que a raiva surja. Da mesma forma, vocês devem proteger suas bocas, caso contrário, palavras más sairão delas. Se vocês permitirem pensamentos de raiva, vocês estarão obstruindo seus próprios caminhos e perdendo o benefício de seus méritos. A paciência é uma virtude superior à manutenção dos Preceitos e das práticas ascéticas. As pessoas que praticam paciência podem verdadeiramente ser chamadas de poderosas, de seres superiores. As pessoas que com paciência e alegria podem aceitar o veneno do abuso como se estivessem bebendo néctar celestial ? essas podem ser chamadas de pessoas de sabedoria que adentraram o Caminho. Por quê? Porque os efeitos maléficos da raiva quebram todos os bons ensinamentos e destroem o bom nome, de forma que, tanto no presente como no futuro, as pessoas não sentirão prazer ao vê-las. Vocês devem saber que a raiva é mais poderosa que o fogo ardente. Sempre se protejam e não permitam que a raiva penetre em você. Nenhum ladrão rouba mais méritos do que a raiva. Leigos, cheios de apegos e desejos, sem praticar o Caminho, sem conhecer o Dharma para se controlar, mesmo neles a raiva não é desculpável. Aqueles que deixaram o lar e praticam o Caminho do não apego nunca devem permitir que a raiva surja, assim como o trovão e o raio não ocorrem num céu suave e claro.

 

Oh, Monges!

Lembrem-se de suas cabeças raspadas. Vocês já abandonaram as ornamentações, usam roupas simples e praticam a mendicância. Se o orgulho surgir, vocês o devem extinguir rapidamente. Cultivar o orgulho não é apropriado para quem vive uma vida comum, muito menos para quem deixou seu lar, adentrou o Caminho, controla seu corpo e pratica o esmolar para obter a libertação.

 

Oh, Monges!

A mente desonesta é incompatível com o Caminho. Por esta razão vocês devem cultivar a honestidade. Vocês devem saber que a desonestidade só produz enganos. Quem adentra o Caminho não age assim. É por isso, Monges, que vocês devem ter a mente correta e agir baseados na honestidade.

 

Oh, Monges!

Vocês devem saber que uma pessoa de muitos desejos, procurando grandiosidade apenas para si mesma, sofre muito. A pessoa de poucos desejos, que nem procura e nem deseja, não tem este pesar. Esta é a simples razão pela qual vocês devem ter o mínimo de desejos. Mais do que isso: devem ter poucos desejos porque esta é a fonte de todos os bons méritos. Uma pessoa de poucos desejos não manipula a mente dos outros através da desonestidade, nem é levada pelos seis órgãos dos sentidos. A mente de quem tem poucos desejos é tranqüila e sem preocupações. O que tiver é suficiente, nunca há insuficiência. Para aqueles que têm poucos desejos o Nirvana existe. Esta é a prática de poucos desejos.

 

Oh, Monges!

Se vocês querem se libertar de todo o sofrimento, vocês devem conhecer o contentamento. O estado de contentamento é a condição de prosperidade e bem estar. A pessoa contente fica feliz mesmo quando tem apenas a terra para se deitar sobre ela. A pessoa que não se contenta está insatisfeita mesmo em palácios celestiais. Quem não conhece o contentamento é pobre, apesar de todas as riquezas que possa ter. Alguém que é contente é rico, não importando quão pobre possa ser. Quem não conhece o contentamento é sempre arrastado por desejos e deve ser apiedado por quem é contente. Esta é a prática do contentamento.

 

Oh, Monges!

Se vocês procuram pela benção da tranqüilidade irremovível, devem abandonar o tumulto da sociedade e viver a sós em um retiro quieto. Aqueles que vivem em solidão são honrados por Indra e por seres celestiais. Por isso vocês devem deixar tanto as suas como as outras vilas ou cidades e viver a sós em locais remotos, com a intenção de extinguir a origem do sofrimento. Os ávidos por companhia sofrem dificuldades por excesso de companhia, assim como a árvore corre o risco de murchar se muitos pássaros viverem nela. Se estiverem apegados ao mundo irão afundar no sofrimento comum, assim como um velho elefante se afoga na areia movediça e dali não consegue sair. Tal é a prática do isolamento.

 

Oh, Monges!

Se vocês diligentemente mantiverem o esforço correto nada será difícil. Por isso vocês devem manter o esforço correto diligentemente, assim como o constante gotejar da água fura uma rocha. Se a mente do praticante for inclinada à indolência, será como esfregar a madeira para iniciar o fogo e descansar antes que ela fique quente. Mesmo que esta pessoa queira o fogo, a faísca não acontece. Tal é a prática do esforço correto.

 

Oh, Monges!

Não percam a atenção correta ao procurar por um mestre ou por um amigo. Se vocês perderem a atenção, as paixões poderão entrar. Por isso, Monges, sempre mantenham a plena atenção. Se perderem a atenção, perderão todo o mérito. Se o poder da atenção for forte, vocês não poderão ser feridos pelos desejos, assim como não teriam o que temer se entrassem numa batalha usando uma armadura. Esta é a prática de não perder a atenção.

 

Oh, Monges!

Se unificarem suas mentes, suas mentes estarão concentradas. Quando suas mentes estiverem concentradas, vocês poderão compreender as marcas do surgir e do extinguir de todas as coisas no mundo. Por isso, Monges, vocês devem praticar a concentração sempre e diligentemente. Se obtiverem a concentração, a mente não ficará dispersa. Assim como as barragens são mantidas em bom estado para conservar a água, o praticante, para o bem da água da sabedoria, deve concentrar-se em meditação e não permitir que vaze. Tal é a prática da concentração.

 

Oh, Monges!

Se vocês tiverem sabedoria, não terão ganância. Observem-se e não permitam que a sabedoria se perca. Através do Dharma vocês poderão se libertar. Se assim não o fizerem, não serão considerados seguidores do Caminho, nem mesmo leigos serão. Em verdade, a sabedoria é um navio forte que os leva através do oceano da velhice, doença e morte. Repito, a sabedoria é uma grande lâmpada iluminando a escuridão da ignorância, é um remédio maravilhoso para todas as doenças, é um machado afiado que corta a árvore das paixões. Por isso, Monges, através do ouvir, do pensar e do praticar, vocês devem aumentar sempre a sabedoria. Se vocês possuírem o brilho da sabedoria poderão ver claramente, com seus próprios olhos. Tal é a sabedoria.

 

Oh, Monges!

Se vocês se engajarem de forma leviana em conversas inúteis, suas mentes ficarão confusas. Mesmo que tenham deixado suas casas não poderão obter a libertação. Por isso, Monges, vocês devem imediatamente abandonar pensamentos confusos e as conversas desnecessárias. Se quiserem obter a benção de Nirvana, vocês devem apenas extinguir o mal de falar à toa. Tal é a prática de evitar a fala fútil.

 

Oh, Monges!

De todas as atividades meritórias vocês devem, de todo coração, concentrar-se em afastar qualquer forma de indulgência pessoal, assim como vocês evitariam um ladrão. O benéfico Ensinamento de Grande Compaixão do Mais Honrado agora se completou.

 

Oh, Monges!

Vocês devem se esforçar diligentemente na prática do Dharma. Tanto se viverem nas montanhas, à beira d?água, sob uma árvore num local remoto ou num aposento sossegado, mantenham a plena atenção no Dharma que receberam e não o esqueçam. Vocês devem sempre se empenhar na prática do Dharma e do esforço correto. Se não fizerem nada e morrerem em vão, vocês só encontrarão arrependimentos futuros. Sou como um bom médico que, reconhecendo uma doença, prescreve a receita apropriada. Se o remédio é tomado ou não, já não é de responsabilidade do médico. Novamente digo: sou como um bom guia que mostra às pessoas o melhor caminho. Se elas não o seguirem, sabendo de sua existência, não é culpa do guia.

 

Oh, Monges!

Se tiverem qualquer dúvida sobre as Quatro Nobres Verdades, perguntem imediatamente. Não guardem as dúvidas sem procurar resolvê-las. Por três vezes, o mais Honrado enxortou os Monges dessa forma, mas ninguém na assembléia falou, pois não havia dúvidas. Nesse momento, Aniruddha, percebendo a mente dos que estavam ali reunidos, disse a Buda: - Honrado do Mundo! Mesmo que a Lua fique quente e o Sol torne-se frio, as Quatro Nobres Verdades ensinadas por Buda não podem mudar. A verdade do sofrimento ensinada por Buda é do verdadeiro sofrimento que não vira felicidade. Apego é a causa verdadeira e não há outra causa. O sofrimento é destruído quando sua causa é destruída. O Caminho da destruição do sofrimento é o Caminho da Verdade e não há outro caminho. - Honrado do Mundo! Todos estes Monges têm certeza e não têm dúvidas em relação às Quatro Nobres Verdades. Se nesta assembléia houver alguém que ainda não completou sua compreensão, ao ver a passagem de Buda se lamentará. Aqueles que apenas agora penetraram o Dharma obterão o despertar ao ouvir as palavras de Buda. Assim como na escuridão da noite um raio ilumina a estrada. Se houver alguém que já tenham completado sua compreensão e cruzado o mar de sofrimento, terá apenas este pensamento: quão rápida é a passagem do Mais Honrado do Mundo! Quando Aniruddha falou estas palavras, todos na assembléia claramente compreenderam o significado das Quatro Nobres Verdades. Mas o Honrado do Mundo, querendo que todos na grande assembléia se tornassem mais fortes, movido por sua infinita Compaixão, falou: Oh, Monges! Não se lamentem! Nosso estar juntos um dia acabaria mesmo que Eu vivesse no mundo tanto quanto um kalpa. Não existe encontro sem despedida. O Dharma que beneficia tanto o eu como o outro se completou. Mesmo que Eu vivesse mais não haveria nada a adicionar ao Dharma. Aqueles que deveriam ser despertos, tanto nos céus como entre seres humanos, todos foram acordados. Todos possuem as condições para obter o despertar, mesmo aqueles que não foram despertos. Se todos os Meus discípulos, de geração em geração, a partir de agora praticarem o Dharma, o Corpo do Dharma do Tathagata existirá para sempre e nunca será destruído. Saibam que tudo no mundo é impermanente; o que se junta inevitavelmente se separa. Não se preocupem, pois esta é a natureza da vida. Pratiquem diligentemente com esforço correto e procurem a libertação imediatamente. Destruam a escuridão da ignorância com a luz da sabedoria. Nada é seguro. Tudo nessa vida é precário. Agora obtenho Parinirvana. É como se libertar de uma doença maléfica. Esta coisa que descartamos e que chamamos de corpo está afogado no mar do nascimento, velhice, doença e morte. Como poderia haver alguma pessoa sábia que não se alegrasse ao se desfazer dele?

 

Oh, Monges!

Vocês devem sempre, de todo o coração, procurar o Caminho da libertação. Todas as coisas no mundo, tanto as que se movem como as que não se movem, são caracterizadas por instabilidade e desaparecimento. Parem, agora! Não falem! O tempo passa. Atravesso. Este é o Meu Ensinamento final.

 

Revisão do texto feita por Monja Coen Roshi em fevereiro de 2003 Tradução do inglês para o português de Monja Coen Roshi, São Paulo, Brasil, fevereiro de 2002. Tradução do japonês para o inglês de Kazuaki Tanashi e Jonathan Condit, São Francisco, EUA, Maio de 1980.