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BREVE DEPOIMENTO SOBRE O SESHIN DE PARANIRVANA DE BUDA COM A PRESENÇA AUSPICIOSA DE MONGES DA ORDEM ZEN PEACEMAKERS

Monja Kokai me pediu que registrasse algo da experiência vivida com a presença do Sensei Paco Lugoviña e de seu aluno Daiken Nelson, do Zen Peacemakers, no Seshin de Paranirvana de Buda na Vila Zen, em Viamão, RS, no Carnaval. Eu sabia da existência do Zen Peacemakers antes desse encontro, mas não estava atenta a ela. Felizmente, isso mudou.

Não é fácil, se não impossível, descrever a intensidade daqueles dois dias em que eles estiveram entre nós. Ovídio Waldemar, representante do Zen Peacemakers no Brasil e associado do Via Zen, nos propiciou esta oportunidade de convivermos dois dias com Sensei Paco e Daiken Nelson, e por isso sou extremamente grata.

A primeira surpresa do encontro foi saber que o Zen Peacemakers tem o objetivo de inovar criativamente o Zen, adaptando-o à cultura ocidental. É uma ordem Zen própria, criada pelo mestre Zen Roshi Bernie Glassman em 1995. Como acredito que o crescimento do Zen no Brasil depende de sua adaptação à cultura ocidental – brasileira, latino-americana –, foi com grande interesse que acompanhei a exposição de Sensei Paco. Bernie Glassman foi aluno de Maezumi Roshi, também professor de Monja Coen em Los Angeles (maiores detalhes sobre a fundação e atividades do Zen Peacemakers podem ser encontradas nos sites do Via Zen /si/site , Zen do Brasil http://www.zendobrasil.org.br/si/site, Monja Coen http://www.monjacoen.com.br/ , além do site oficial  da entidade http://www.zenpeacemakers.org/).

Na ordem Zen Peacemarkes, os valores budistas são traduzidos em linguagem da cultura ocidental. Assim os “três tesouros” podem ser expressos por Unidade (a natureza desperta de todos os seres), Diversidade (o oceano de sabedoria e compaixão) e Harmonia (a interdependência de tudo que existe). A sanga se compromete com três máximas: (1) não saber (mente de principiante; abandonar idéias fixas sobre eu mesma e o universo); (2) testemunhar a alegria e o sofrimento do mundo (agir depois de compreender profundamente); (3) agir amorosamente (agir sempre construtivamente). Tudo isso se manifesta através do esforço dedicado de indivíduos e grupos que expressam a interconexão e a unidade da vida nos mosteiros, no trabalho, nas famílias e na comunidade. Sensei Paco, ao relatar e explicar como funcionam os retiros de rua e os em Auschwitz, mostrou como estes preceitos estão presentes em cada atitude. Tudo tem razão se ser. Foi emocionante!

Como disse Sensei Paco, o Zen Peacemakers permitiu que ele desse a sua atuação social uma dimensão espiritual. Agir socialmente - ativismo social - se tornou sua prática zen. Ele encontrou o caminho no chamado budismo engajado. Assim como a ordem de Thich Naht Hanh – Ordem do Interser – busca enraizar-se no mundo e na vida de todos, aproximar-se do sofrimento de todos os que necessitam e oferecer-lhes ajuda e cura, a Ordem do Zen Peacemakers compreende o caminho de Buda como uma maneira de desenvolver a generosidade e a compaixão por meio do trabalho social junto à comunidade.

A segunda surpresa do encontro foi a extroversão de Sensei Paco, sua disponibilidade e vigor, apesar de seus 70 e poucos anos. Ele é o exemplo vivo da filosofia Zen Peacemakers: Unidade, Diversidade e Harmonia. Em sua prática não há exclusão. Na verdade, ele vive o Zen, e sem dispensar o bom humor e a diversão. Fizemos sazen, aprendemos sobre os retiros de rua e em Auschwitz e sobre as inúmeras atividades e práticas do Zen Peacemakers, e com isso pudemos também nos conhecer melhor. E tudo foi muito divertido.

Eu sinceramente acredito que o Zen, para crescer no Brasil, deve incorporar essa atitude diante da vida e da prática. Usar o “nariz de palhaço”, de que nos falou Sensei Paco. O bom humor, a alegria, o contato físico fazem parte de nossa alma latino-americana. O verdadeiro Zen não é sinônimo de sisudez e frieza, que, aliás, não fazem parte de nossa cultura. Iniciávamos a prática com o silêncio do sazen e depois seguíamos com a fala dele ou de Daiken, com exposições vivas e extrovertidas.

Saí do retiro extremamente sensibilizada pelo trabalho que o Zen Peacemakers desenvolvem em Nova Iorque e que Ovídio Waldemar coordena em Viamão e em Porto Alegre. Entendi o esforço de Ovídio em nos propiciar essa rica vivência em nosso Seshin como a sinalização de uma opção real e intensa para o Via Zen e para o Zen Vale dos Sinos.

Como disse Sensei Paco, a ordem Zen Peacemakers se preocupa em propiciar causas e condições para mudar a vida das pessoas que sofrem e que necessitam de ajuda. Para realizar isso, devemos corrigir nossos desequilíbrios. Essa máxima me tocou profundamente – Como corrigir meus desequilíbrios? Creio que essa indagação vale para todos nós, pessoalmente, e para as comunidades das duas sangas envolvidas (que, na verdade, são uma só).

Gasshô,

Eduarda Kobun      
 
 depoimento sobre o Seshin de Paranirvana de Buda no Vila Zen.
Eu o reproduzo aqui.

BREVE DEPOIMENTO SOBRE O SESHIN DE PARANIRVANA DE BUDA COM A PRESENÇA AUSPICIOSA DE MONGES DA ORDEM ZEN PEACEMAKERS




Monja Kokai me pediu que registrasse neste blog algo da experiência vivida com a presença do Sensei Paco Lugoviña e de seu aluno Daiken Nelson, do Zen Peacemakers, no Seshin de Paranirvana de Buda na Vila Zen, em Viamão, RS, no Carnaval. Eu sabia da existência do Zen Peacemakers antes desse encontro, mas não estava atenta a ela. Felizmente, isso mudou.

Não é fácil, se não impossível, descrever a intensidade daqueles dois dias em que eles estiveram entre nós. Ovídio Waldemar, representante do Zen Peacemakers no Brasil e associado do Via Zen, nos propiciou esta oportunidade de convivermos dois dias com Sensei Paco e Daiken Nelson, e por isso sou extremamente grata.

A primeira surpresa do encontro foi saber que o Zen Peacemakers tem o objetivo de inovar criativamente o Zen, adaptando-o à cultura ocidental. É uma ordem Zen própria, criada pelo mestre Zen Roshi Bernie Glassman em 1995. Como acredito que o crescimento do Zen no Brasil depende de sua adaptação à cultura ocidental – brasileira, latino-americana –, foi com grande interesse que acompanhei a exposição de Sensei Paco. Bernie Glassman foi aluno de Maezumi Roshi, também professor de Monja Coen em Los Angeles (maiores detalhes sobre a fundação e atividades do Zen Peacemakers podem ser encontradas nos sites do Via Zen /si/site , Zen do Brasil http://www.zendobrasil.org.br/si/site, Monja Coen http://www.monjacoen.com.br/ , além do site oficial  da entidade http://www.zenpeacemakers.org/).

Na ordem Zen Peacemarkes, os valores budistas são traduzidos em linguagem da cultura ocidental. Assim os “três tesouros” podem ser expressos por Unidade (a natureza desperta de todos os seres), Diversidade (o oceano de sabedoria e compaixão) e Harmonia (a interdependência de tudo que existe). A sanga se compromete com três máximas: (1) não saber (mente de principiante; abandonar idéias fixas sobre eu mesma e o universo); (2) testemunhar a alegria e o sofrimento do mundo (agir depois de compreender profundamente); (3) agir amorosamente (agir sempre construtivamente). Tudo isso se manifesta através do esforço dedicado de indivíduos e grupos que expressam a interconexão e a unidade da vida nos mosteiros, no trabalho, nas famílias e na comunidade. Sensei Paco, ao relatar e explicar como funcionam os retiros de rua e os em Auschwitz, mostrou como estes preceitos estão presentes em cada atitude. Tudo tem razão se ser. Foi emocionante!

Como disse Sensei Paco, o Zen Peacemakers permitiu que ele desse a sua atuação social uma dimensão espiritual. Agir socialmente - ativismo social - se tornou sua prática zen. Ele encontrou o caminho no chamado budismo engajado. Assim como a ordem de Thich Naht Hanh – Ordem do Interser – busca enraizar-se no mundo e na vida de todos, aproximar-se do sofrimento de todos os que necessitam e oferecer-lhes ajuda e cura, a Ordem do Zen Peacemakers compreende o caminho de Buda como uma maneira de desenvolver a generosidade e a compaixão por meio do trabalho social junto à comunidade.

A segunda surpresa do encontro foi a extroversão de Sensei Paco, sua disponibilidade e vigor, apesar de seus 70 e poucos anos. Ele é o exemplo vivo da filosofia Zen Peacemakers: Unidade, Diversidade e Harmonia. Em sua prática não há exclusão. Na verdade, ele vive o Zen, e sem dispensar o bom humor e a diversão. Fizemos sazen, aprendemos sobre os retiros de rua e em Auschwitz e sobre as inúmeras atividades e práticas do Zen Peacemakers, e com isso pudemos também nos conhecer melhor. E tudo foi muito divertido.

Eu sinceramente acredito que o Zen, para crescer no Brasil, deve incorporar essa atitude diante da vida e da prática. Usar o “nariz de palhaço”, de que nos falou Sensei Paco. O bom humor, a alegria, o contato físico fazem parte de nossa alma latino-americana. O verdadeiro Zen não é sinônimo de sisudez e frieza, que, aliás, não fazem parte de nossa cultura. Iniciávamos a prática com o silêncio do sazen e depois seguíamos com a fala dele ou de Daiken, com exposições vivas e extrovertidas.

Saí do retiro extremamente sensibilizada pelo trabalho que o Zen Peacemakers desenvolvem em Nova Iorque e que Ovídio Waldemar coordena em Viamão e em Porto Alegre. Entendi o esforço de Ovídio em nos propiciar essa rica vivência em nosso Seshin como a sinalização de uma opção real e intensa para o Via Zen e para o Zen Vale dos Sinos.

Como disse Sensei Paco, a ordem Zen Peacemakers se preocupa em propiciar causas e condições para mudar a vida das pessoas que sofrem e que necessitam de ajuda. Para realizar isso, devemos corrigir nossos desequilíbrios. Essa máxima me tocou profundamente – Como corrigir meus desequilíbrios? Creio que essa indagação vale para todos nós, pessoalmente, e para as comunidades das duas sangas envolvidas (que, na verdade, são uma só).

Gasshô,

Eduarda Kobun
 
O ATIVISMO SOCIAL DOS ZENPEACEMAKERS


J. Ovídio Waldemar

A filosofia Zen Peacemakers foi criada por Roshi Bernie Glassman no início dos anos oitenta, com a fundação do Centro Zen de Nova York (ZCNY). Durante a década de setenta, Roshi Glassman atuou no Centro Zen de Los Angeles (ZCLA), junto a seu professor Maezumi Roshi, até se mudar para Nova York a fim de estabelecer um novo centro de prática da linhagem. Glassman foi educado em um contexto de ideias de esquerda; sua formação pessoal e suas novas experiências espirituais — a compreensão que o caminho budista é uma maneira de desenvolver a generosidade e a compaixão — levaram-no a ver como natural a combinação da prática Zen com o trabalho social junto à comunidade.

O primeiro passo para esta mudança foi a decisão de transferir a sede do ZCNY de uma mansão numa zona rica da cidade, em Riverdale, para uma casa na comunidade carente de Yonkers, onde estava a população menos favorecida que já vinham atendendo. Esta mudança trouxe muitas consequências. Vários praticantes deixaram o centro, pois pensavam na vida espiritual como algo separado do trabalho social; já outras pessoas foram atraídas justamente pela possibilidade de combinar o ativismo social com espiritualidade. A iniciativa pioneira do ZCNY foi estabelecer um programa de treinamento vocacional para a população desempregada que vivia em péssimas condições, alojados em motéis decadentes patrocinados pelo governo.

Naquela ocasião, praticantes do Centro Zen de San Francisco (SFZC) vieram passar um longo período em Nova York com objetivo de ensinar à comunidade de Yonkers o ofício de preparar pães e doces, área em que já atuavam. Dali ao surgimento de uma padaria foi um passo. Junto com ela foi criada a Fundação Greyston (greyston.org), que surgiu com o objetivo de implementar ações sociais comunitárias. Dentre as ações, foi fundada uma creche para cuidar dos filhos dos trabalhadores e também um programa de renovação de moradias. A padaria Greyston tornou-se famosa pela qualidade de seus produtos e Bernie Glassman foi agraciado com o título de “Empresário Social do Ano” pela revista Business Week em 1993.

A partir de 1995, ao lado de sua segunda esposa, Jishu Holmes, Bernie Glassman deixa Greyston, que já funcionava autonomamente, e funda uma organização com o objetivo de levar o ativismo social e espiritual para os mais necessitados. Surgia ali o Zen Peacemakers. Bernie Glassman passa a coordenar retiros em lugares incomuns — como as ruas, vivendo a experiência de pessoas sem-teto, e também no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. São experiências radicais que buscam desenvolver a compaixão através da imersão em situações de extremo sofrimento humano. Ao final dos retiros, muitos participantes saem ainda mais comprometidos em aliviar o sofrimento próprio e de todos os seres humanos.

De meu ponto de vista, como psiquiatra, uma outra extraordinária contribuição do Zen Peacemakers é a ênfase dada aos aspectos psicológicos e morais do desenvolvimento do indivíduo e da Sangha (comunidade de praticantes). Para isso, o treinamento oferecido pelo Zen Peacemakers utiliza métodos como dinâmicas de grupo que incentivam a coesão grupal e a intimidade interpessoal. Um outro aspecto essencial é o trabalho inter-religioso como base para o estabelecimento de uma filosofia de paz mundial. Hoje o grupo possui uma sede para eventos e treinamentos, a Motherhouse (Casa de Todos os Povos), que fica a duas horas de Boston. 

Desde 2007, uma comunidade de 54 centros afiliados em três continentes tem se reunido anualmente para treinamento e discussão sobre os rumos da organização. Naquele ano participei do evento, na Motherhouse, representando o Via Zen, do Rio Grande do Sul. O Zen Peacemakers atualmente tem a proposta de ser uma organização de apoio a todos os ativistas sociais das mais diversas orientações espirituais. Em 2008 aconteceu uma formação intensiva de quatro meses com o objetivo de formar ativistas sociais no modelo de Greyston. O programa é bastante abrangente e inclui aulas de organização comunitária, psicologia individual e grupal e princípios do Zen. Oferece-se aprofundamento em liturgia budista em parceria com a Faculdade de Religião de Harvard, onde Roshi Glassman atualmente é professor convidado. Seu primeiro grupo de graduados já está atuando em várias Zen Houses nos Estados Unidos, centros de Dharma onde a prática zen budista e o ativismo social1 são inseparáveis.

Em Porto Alegre, em parceria com o Instituto da Familia e o Via Zen, o Zen Peacemakers tem desenvolvido um programa de consultas psicoterápicas gratuitas para alunos das escolas públicas do bairro Petrópolis. Há dois anos começou também um programa de educação em Inteligência Emocional na Escola Ivo Corseuil, e desde 2007 colabora com o núcleo de ação social (NASCEM) do CEEB (Centro de Estudos Budistas Bodisatva), coordenado por Lama Samten, em Viamão.

1   Sobre o trabalho do Zen Peacemakers nos EUA: zenpeacemakers.org/about/tricycle_article_oliver.pdf

J. Ovídio Waldemar é psiquiatra, professor de psicoterapia do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e diretor do Instituto da Família (infapa.com.br), Centro de Formação de Psicoterapeutas. É membro do Via Zen há 15 anos e participa do Zen Peacemakers (zenpeacemakers.org) desde 2005. 

A Revista ZenVirtual (RZV) entrevista José Ovídio Waldemar(OW) sobre os Zenpeacemakers
 
RZV - Ovídio, em primeiro lugar, o que é o Zenpeacemaker(ZP)?
OW - Os ZP foi criado pelo mestre Zen Roshi Bernie Glassman em 1995. Seu objetivo é inovar criativamente o Zen , adaptando-o à cultura ocidental. Mas o que me atraiu especialmente nos ZP é a visão de desenvolver uma linha de prática de vida na qual os aspectos espirituais, emocionais e o trabalho social se desenvolvam simultaneamente.

RZV-Quando é que você começou a se interessar pelo Zen?
OW - Na minha adolescência gostava muito do Erich Fromm, que escreveu Zen Budismo e Psicanálise. Durante a Faculdade de Medicina eu era parte da contracultura hippie dos anos sessenta e militante estudantil contra a ditadura. A filosofia “Zen” era parte da nossa cultura, na sua versão Zen Light, isso é, viva e deixe viver! Naquela época quase não havia o que ler sobre o Zen. Nos anos setenta me esqueci do Zen. Já na minha fase adulta, na década de oitenta, descobri em espanhol os livros do Mestre Deshimaru. No inicio da década de noventa comecei a fazer parte de um grupo Zen em Porto Alegre, que foi o precursor do atual Viazen e onde estou até hoje.

RZV - E como se deu a descoberta dos Zenpeacemakers?
OW - Sempre participei de política e também mantive um contato permanente com trabalho voluntário com a população carente através do Instituto da Família. Assumi também uma posição de liderança no campo profissional de Terapia de Família. Eu sentia que na minha vida pessoal já integrava várias perspectivas mas observei que faltava para o pessoal da política uma olhada mais espiritual e não me agradava que quem fazia trabalho voluntário não tivesse uma visão mais ampla do funcionamento da sociedade. Então aconteceu naturalmente que quando eu participava de política, falava do emocional e do espiritual. Quando participava do grupo da psicologia, falava da política e espiritualidade e para o pessoal do Zen eu falava de psicologia e política! Sempre me senti uma pessoa que gostava muito de integrar conhecimentos. Quando descobri na internet o Zenpeacemaker fiquei encantado, pois era um grupo que preconizava a necessidade do desenvolvimento integrado de todos estes aspectos, exatamente o que eu pensava! Foi um pouco como se finalmente achasse minha verdadeira casa depois de andar muito tempo visitando outros.

RZV - Como é que os ZP estão organizados?
OW
- Existem grupos nos USA e na Europa. Estou começando a organizar um em Porto Alegre. Nos USA pode-se ver pela webpage dos ZP www.zenpeacemakers.org que existem dezenas de grupos com centenas de participantes. A sede da instituição é em Montague, que fica distante uma hora de Boston. Lá já funciona um centro de treinamento , o Maizemi Institute , da filosofia ZP ,todo construído a partir de doações particulares que alcançaram 3 milhões de dólares. Várias tradições religiosas tem freqüentado a sede nos USA e mais importante que a fé específica é a motivação dos praticantes para esta visão do desenvolvimento integrado dos aspectos espirituais, emocionais e sociais.
O ZP já começa a oferecer cursos e formação integral a longo prazo, tanto para alunos jovens quanto para pessoas já maduras. Jorge Mello, do Viazen, vai passar o segundo semestre de 2007 lá. Como é ainda uma instituição nova, o conselho diretor do Zenpeacemaker continua se reunindo em diversas comissões para consolidar modelos de currículo e funcionamento aplicáveis aos diversos centros de formação, mas que sempre serão adaptados às especificidades de cada um. Eu participo da comissão de educação e treinamento.

RZV - Que experiências que você já teve com os ZP?
OW
- No Fórum Social Mundial de 2005 Eve Marko, que é a diretora internacional dos ZP ficou uma semana conosco e nos tornamos amigos. Ela convidou-me para visita-los, o que fiz Julho de 2005. A sede dos ZP, que é chamada de Motherhouse, fica num lindo sítio em meio a verdes bosques. Passei uma tarde com Bernie Glassman, uma pessoa muito simples e inspiradora. Seus livros Instructions to the Cook e Infinite Circle marcaram-me profundamente. Naquela época ele ainda curtia charutos e fumamos dois brasileiros dos bons... Em Novembro de 2006 participei com mais 100 ZPs do 10° retiro em Auschwitz, uma experiência transformadora para mim, onde conheci gente maravilhosa. Em fevereiro de 2007 passei uma semana em Montague, estudando com Bernie e participando da reunião dos seniors dos ZP. Fui aceito como “full member”, representando o Viazen e o Instituto da Família. Passei a fazer parte da comissão de educação, encarregada de planejar as atividades dos futuros encontros anuais e do currículo básico. O principal foi o clima amoroso, descontraído e todas as novas amizades que fiz. Fazer novas amizades aos 60 anos é uma dádiva dos céus (ou do Buddha?).

RZV - Como é que está sendo organizado o capítulo local dos ZP?
OW - O Instituto da Família, através da minha coordenação, está na fase de treinamento de equipes que vão trabalhar com grupos no projeto social de assistência às escolas públicas do bairro Petrópolis. Desde 2005 já tratamos mais de 50 famílias e agora começamos uma fase em que estamos oferecendo formar grupos nas escolas para as mais diversas finalidades. Por exemplo, grupos para crianças hiperativas, grupos de resolução de conflito para professores e alunos. Vai depender do que a escolas nos solicitem. O Viazen por enquanto tem oferecido sua sede para atividades e alguns praticantes começam a ser voluntários no projeto.

RZV - Poderias nos contar mais sobre o que gostas na filosofia Zen e o que diferencia o zen dos ZP dos demais grupos?
OW - O que me atrai na filosofia Zen é ao mesmo tempo sua simplicidade e sua complexidade. A vida é assim, complexa e simples ao mesmo tempo. Está com problemas? vá meditar! Mas vá também ao psicólogo! E não é má idéia ajudar aos outros além de ficar olhando para o próprio umbigo! Algo muito forte que senti nos ZP é o carinho e a consideração com que todos se tratam. E foi assim que me trataram. Na formação dos ZP estimula-se, como já disse, a participação em terapia e em variados projetos sociais. É o que já começamos a fazer em Porto Alegre. Do ponto de vista teórico Roshi Glassman afirma que o Zen se manifesta através do esforço dedicado de indivíduos e grupos que expressam a interconexão e a unidade da vida nos mosteiros, no trabalho, nas famílias e na comunidade. Traduz os valores budistas em linguagem da cultura ocidental. Assim os “três tesouros” podem ser expressos por unidade, diversidade e harmonia. Explica que na prática os três tesouros se transformam nos três preceitos que em inglês são NOT KNOWING (manter sempre uma mente aberta), BEARING WITNESS (só agir depois de compreender profundamente) e Loving Actions (agir sempre construtivamente). Seria meio chato aqui ficar falando muito de filosofia, mas acho que dá para ter uma idéia geral. O legal é que o funcionamento dos ZP é totalmente coerente com sua filosofia, não tem dissociação entre teoria e prática, como se vê tão comumente.

RZV - Que outros planos para os ZP em Porto Alegre?
OW
- Pretendemos através do Instituto da Família oferecer um grupo terapêutico na linha transpessoal para associados do Viazen que queiram trabalhar bloqueios emocionais à plena prática espiritual. Pretendemos também contribuir para que no Viazen comecemos práticas de meditação em movimento, o que é comum nos ZP, como Yoga e danças circulares. Vamos desenvolver também treinamento na dinâmica de grupo chamada Council, que é um método que assegura um funcionamento grupal criativo e cooperativo, dentro da linha Educação para a Paz. Queremos também continuar com o intercâmbio com os USA; a idéia é que a cada ano um ou mais praticantes passem um longo período nos USA, conhecendo a sangha lá, e se aperfeiçoando espiritual e profissionalmente. Estamos muito entusiasmados!

José Ovidio Copstein Waldemar é Médico psiquiatra, professor e coordenador do Instituto da Familia (www.infapa.com.br). Coordenador do Projeto Social Infapa-Viazen, com campo de atuação na Escola Estadual Ivo Corseuil. Associado do Viazen e do Zen Peacemaker International. Coordenador local do Zen Peacemaker

 
 

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